O mundo dos 4 zeros

Atualizado: 8 de fev.

É ainda possível sonhar com um mundo zero resíduos orgânicos?


Achas que é possível vivermos num mundo ZERO? Zero pobreza, zero desemprego, zero emissões de carbono e… zero lixo? Na última semana, estive a ler o incrível livro A World of Three Zeros, do professor Muhammad Yunus. Para quem não o conhece, Yunus é um economista do Bangladesh, e na década de 70 ele criou o primeiro banco “dos pobres”.


O Grameen Bank é um banco que fornece microcrédito a mulheres que queiram criar o seu próprio negócio em vilas da zona rural do Bangladesh e funciona na base da confiança: não é exigida nenhuma prova de que a pessoa poderá pagar de volta e nenhum “colateral”, como bens ou imóveis, para garantir o empréstimo. A ideia, para quem conhece o sistema bancário tradicional, pareceu totalmente insana, porém depois de mais de 50 anos em funcionamento, o Grameen Bank anualmente empresta dinheiro a mais de 9 milhões de mulheres, investindo mais de 2,5 mil milhões de dólares por ano em seus empreendimentos, e tem uma taxa de payback de mais de 98%.


Com base em toda a sua carreira apoiando empresas sociais, e criando fundos de investimento específicos para apoiá-las, Yunus foi premiado com o prémio Nobel da Paz em 2006.

Neste livro de 2016, Yunus discorre sobre como é possível criarmos uma nova economia com três bases essenciais: zero pobreza, zero desemprego e zero emissões de carbono.


Devem estar a se perguntar o que é que isso tem a ver com compostagem, certo? Bom, tudo!

Desde setembro, estou a participar do programa Nurturing Social Business, promovido pela Yunus & Youth, uma organização sem fins lucrativos que apoia jovens empreendedores a criar os seus próprios negócios sociais ao redor do mundo, e quem tem o reconhecimento do professor Yunus. Esse programa tem como objetivo apoiar a concepção de uma empresa social, um conceito ainda muito pouco explorado em Portugal infelizmente. E uma das grandes ambições da Mudatuga como empresa é ser um motor de mudança da sociedade portuguesa para um modelo de gestão de resíduos de facto sustentável.


Juntando uma ponta à outra, refleti muito sobre como gostava de contribuir para o mundo dos 3 zeros de Yunus, e ainda adicionar um quarto: zero resíduos. Muitas pessoas ainda não acreditam na viabilidade de chegarmos ao utópico “lixo zero”, mas temos de concordar que podemos chegar muito perto do zero se realmente trabalharmos por isso. O meu foco ao começar a Mudatuga era abordar os resíduos orgânicos e essa foi a melhor estratégia que poderia ter adotado.


Em um dos workshops que tivemos no programa Nurturing Social Business, explorámos uma ferramenta simples para criar soluções aos problemas socioambientais mais complexos, como as mudanças climáticas: antes de decidirmos qual é a melhor solução para o nosso problema, nós nos perguntamos: “how can we….?”


Essa pergunta tão simples fez-me rever todo o percurso da Mudatuga no último ano e perceber porque faz tanto sentido isso que estamos a construir em conjunto: a Mudatuga sempre acreditou no poder da comunidade e da co-criação, desde o primeiro dia. Acho que é evidente que uma empresa com um nome tão disruptivo (ou provocativo?) quanto “MudaTuga” não poderia ser apenas mais uma empresa normal que visa ao lucro sem propósito, certo?


O nosso nome, porém, também poderia ser um convite: muda, tuga? Será que temos as ferramentas para, como sociedade portuguesa, mudarmos os paradigmas dos resíduos no nosso país e sermos pioneiros em encontrar soluções sustentáveis para as nossas futuras gerações? O objetivo deste artigo é vos mostrar que isso é sim possível.