(Quase) tudo sobre compostagem Bokashi

16, Mai. 2022

No artigo anterior sobre Compostagem, explicamos-te que existiam vários métodos: compostagem termofílica, takakura, vermicompostagem (com minhocas) e Bokashi. Hoje queremos falar-se só de Bokashi. Temos a certeza que vais adorar!

O que é a compostagem Bokashi?

Se tivéssemos de resumir a compostagem Bokashi em apenas algumas palavras, seriam elas: sem odor, sem perder tempo, sem precisar de espaço, sem jardim, menos idas ao contentor da rua, menos gases de efeito de estufa, menos resíduos nos aterros. HÁ MAIS! Mas não queremos abusar do vosso tempo 😛

Confuso? Vamos explicar-te!

Bokashi é um termo japonês que significa matéria orgânica fermentada. A compostagem Bokashi está dividida em duas etapas. A primeira é a fermentação anaeróbia dos resíduos orgânicos dentro do compostor (com ausência de oxigénio). Esta etapa podes fazer no balcão da tua cozinha e, depois de teres o compostor cheio, tens de deixá-lo pelo menos 2 semanas fechado e em repouso para fermentar. A segunda etapa é quando misturas os resíduos fermentados com a terra, e é onde ocorre a decomposição propriamente dita. Achas complicado? Vais ver que não.

Fazer a compostagem Bokashi não só é divertido como é melhor para o ambiente. É por isso que falamos tanto de Bokashi! Queremos motivar toda a gente a separar e tratar os resíduos orgânicos nas suas casas ou apartamentos (sim, a compostagem Bokashi é perfeita para apartamento) e mostrar-lhes que podem participar ativamente na valorização dos biorresíduos.

Qual a vantagem da Bokashi face a outros tipos de compostagem?

A fermentação dos resíduos no compostor Bokashi permite que coloques uma variedade de alimentos muito maior do que em qualquer outro tipo de compostagem. Podes colocar praticamente todos os resíduos orgânicos, apenas com umas pequenas exceções. Pelo contrário, na compostagem tradicional (termofílica) não podes colocar resíduos de origem animal, nada de espinhas, queijos e outros resíduos orgânicos que podem facilmente apodrecer, gerar odor desagradável durante a decomposição e atrair pragas. Com a Bokashi, esses problemas estão resolvidíssimos! A fermentação trata de tudo e não deixa que os resíduos cheguem a apodrecer, para além de que os teus resíduos vão estar hermeticamente fechados dentro do compostor.

O compostor Bokashi é também, por norma, mais pequeno que todos os outros compostores, cabendo facilmente em qualquer apartamento. Até numa pequena despensa!

Para além disso, o processo de fermentação vai permitir acelerar a compostagem, pelo que consegues obter o teu adubo muito mais rapidamente do que através dos outros métodos.

Se não fizesses a fermentação dos resíduos, não poderias simplesmente misturá-los com a terra e esperar que aquilo se transformasse em adubo. Terias de fazer primeiro a compostagem dos resíduos com minhocas (num vermicompostor) ou através de compostagem termofílica (de jardim) que, dependendo da tipologia da tua casa e do tempo disponível, poderão ser um pouco mais complicados.

Então como se faz isso? Vamos descrever-te o passo-a-passo!

O que precisas para começar?

Partimos do pressuposto que já tens um compostor Bokashi. Se não tens, podes comprar na nossa loja online ou noutra loja à tua escolha. Com alguma habilidade também podes tentar criar o teu próprio compostor, tendo apenas de garantir algumas questões técnicas importantes. Podes aprender o básico da construção de um compostor Bokashi vendo este reels do nosso instagram, criado pela Carolina da Mudatuga e a incrível Patrícia dos Reis da @reutilizaramente.

Portanto, vais precisas de: um kit de 2 compostores (vais perceber porquê mais à frente) e 1 pacote de farelo Bokashi.

O farelo Bokashi é basicamente o que promove a fermentação dos resíduos orgânicos dentro do compostor. Os kits de compostors Bokashi da nossa loja já inclui 1 pacote de farelo, mas também podes comprá-lo à parte. 1 pacote dá-te para 4 a 6 meses, mas vai depender da quantidade de resíduos que geras. Se tiveres uma família grande, pode ser que se esgote um pouco mais rápido.

Então… onde é que nós íamos?

Ah, sim! PASSO-A-PASSO, aqui vai ele 🙂

Passo-a-passo da 1ª etapa

1. Coloca um guardanapo sobre o fundo falso

Abre a tampa do compostor, certifica-te que não te esqueces de montar a base falsa (com furos) e coloca um guardanapo aberto a cobrir o fundo falso (só para garantir que o farelo ou outros resíduos pequenos não caem pelos furinhos, podendo entupir a torneirinha)-

2. Coloca farelo bokashi por cima do guardanapo

Antes de deitares os primeiros resíduos no compostor, coloca farelo por cima do guardanapo. Não precisas de cobrir o fundo todo. Vê a foto abaixo!

3. Corta os resíduos em pedaços pequenos

Depois de preparares a tua refeição, corta os resíduos orgânicos em pequenos pedaços. Por exemplo, a casca da banana podes cortar pelo menos em 3 ou 4 partes. Nâo precisas de triturá-los, mas se preferires podes fazê-lo. No entanto, tem atenção para não triturares demasiado ao ponto de ficar uma papa.

cortar os resíduos orgânicos em pedaços pequenos

3.1. Que resíduos podes colocar?

  • Restos crus (restos de legumes, frutas e vegetais, cascas de ovos, etc)
  • Restos de alimentos cozinhados (arroz, massa, carnes, etc, com ou sem tempero)
  • Outros resíduos (Laticínios, pão, borra de chá e café, filtros de papel, etc

3.2. Que resíduos NÃO podes colocar?

  • Resíduos que não sejam orgânicos;
  • Resíduos líquidos (sumos, leite, sopas);
  • Ossos médios ou grandes;
  • Fezes e papel higiénico usado;
  • Conchas de ostras ou caracóis;
  • Medicamentos, pensos e beatas de cigarro

4. Guarda os teus resíduos

Para evitar estares sempre a abrir o compostor (porque de cada vez que abres entra oxigénio), armazena os teus resíduos num tupperware e guarda-o, porque provavelmente vais gerar mais resíduos orgânicos ao longo do dia. Podes deixar o tupperware fora do frigorífico se não estiver muito calor. No entanto, com o calor, aconselhamos-te a pô-lo no frigorífico para que os resíduos não apodreçam rapidamente.

5. coloca os resíduos no compostor de 2 em 2 dias

No final do dia (caso os resíduos tenham estado em temperaturas relativamente quentes), ou no final do dia seguinte, abre o compostor e coloca lá os resíduos que guardaste no tupperware. O ideal é que o abras apenas de 2 em 2 dias, para evitar a constante entrada de oxigénio.

6. Amassa os resíduos

Amassa os resíduos com um instrumento qualquer para remover o máximo de oxigénio possível e aumentar a superfície de contacto entre os resíduos e o farelo Bokashi. Podes usar uma garrafa de vidro, um espremedor de batatas… o que tu quiseres! Normalmente com o nosso kit já vem um utensílio próprio para os amassar.

7. Espalha o farelo bokashi

Por cima dessa camada de resíduos (que não deve ter uma espessura muito superior a 2 dedos), espalha algum farelo Bokashi. Não é preciso cobrir tudo: 60% de cobertura chega e evita desperdícios. Normalmente com o compostor costuma vir sempre um doseador para medires a quantidade de farelo. Deves colocar mais ou menos 40ml mas esta quantidade pode variar de acordo com o tipo de resíduos que colocas e de como está a correr o processo.

8. Tira a foto para o instagram!

Tira a pic para o instagram e tapa rapidamente o compostor ?

8.1. Dica ninja? Podes cortar a tampa da caixa de cartão onde veio o teu kit à medida do compostor para minimizares ainda mais o contacto dos resíduos com o oxigénio.

9. Repete o processo até encher o compostor e vai retirando o chá bokashi regularmente

Basicamente tens de repetir este processo sempre que adicionas 1 camada de resíduos ao compostor (cortar em pedaços pequenos, amassar, colocar farelo, tapar). E outra coisa muito importante! Tens de ir retirando (pela torneirinha do compostor) o “chá Bokashi”, que é o biofertilizante líquido que resulta da separação da fração sólida e líquida dos resíduos. Deves fazê-lo mais ou menos 2 a 3 vezes por semana, mas é normal que nas primeiras semanas em que começas a utilizar o compostor não tenhas “chá” Bokashi. É uma questão de ires vendo se sai algum líquido da torneira.

O “chá” Bokashi é um adubo potentíssimo para as plantas! Deves diluí-lo na proporção de 1:100 (10 mL de “chá” para 1L de água), colocando-o sempre na terra (não o coloques diretamente nas folhas ou raízes). Deves sempre guardar o chá de Bokashi dentro de uma garrafa fechada no frigorífico e utilizá-lo no máximo em 15 dias. Caso tenhas “chá” Bokashi em excesso, podes usá-lo para desentupir canos (não é brincadeira) 😛

10. Depois de cheio, deixa o compostor em repouso para fermentar pelo menos 2 semanas

Depois de encheres totalmente o teu compostor, fecha-o bem e deixa-o em repouso a fermentar por, no mínimo, 2 semanas. Se acabares por deixar mais uns dias/semanas não tem problema. Enquanto deixas esse compostor em repouso por umas semanas, começas a encher o 2º compostor! É por isso que tens sempre de ter 2 compostores! Falamos disso mais à frente.

Passado essas 2 semanas, o resultado é uma massa fermentada com aspeto bastante similar ao inicial.

resíduos orgânicos fermentados

Agora vamos mostrar-te como funciona a 2ª etapa da Compostagem Bokashi.

É nesta etapa que se dá efetivamente a decomposição dos resíduos. O que tens de fazer para isso acontecer?

Passo-a-passo da 2ª etapa

1. Mistura os resíduos fermentados com terra

Misturar na proporção 2:1 terra e resíduos fermentados (ou seja, colocar o dobro da terra);

2. Cobre tudo com terra

Mistura a terra com os resíduos e, por cima, cobre com uma camada de terra com pelo menos 4 dedos de espessura;

3. Aguarda pelo menos mais 2 semanas

É preciso esperar no mínimo mais 2 semanas em repouso antes de poderes utilizar essa “nova terra” para plantar ou para adubar vasos (estabilização pH).

E voilá! Adubo pronto!

Porque é que a mudatuga vende sempre kits com 2 compostores?

A compostagem Bokashi, mesmo sendo mais acelerada, leva o seu tempo. É natural que os processos orgânicos precisem de algumas semanas para ocorrerem, certo? Estamos a lidar com seres vivos, não com robôs ?

Enquanto um balde está a fermentar, o outro balde deve estar “livre” para recomeçares a fermentação de novos resíduos orgânicos. Tens sempre de alternar entre os 2 compostores. Assim não ficas sem sítio para continuares a fermentar os teus resíduos!

Apercebemo-nos que alguns clientes ficavam frustrados quando compravam apenas 1 compostor e só depois se apercebiam que afinal precisavam de 2. Foi por isso que decidimos optar por vender apenas kits.

Tenho um vermicompostor. Faz sentido fazer também a Bokashi?

Para quem tem um vermicompostor (também chamado minhocário no Brasil) e se sente ainda frustrado com algumas das restrições de alimentação das minhocas, o compostor Bokashi pode ser um complemento incrível: podes primeiro fermentar os resíduos (no Bokashi) e depois utilizá-los para alimentar as minhocas (no vermicompostor), mesmo aqueles resíduos que supostamente não poderias usar na vermicompostagem. A fermentação faz milagres 😛

O que fazer com os resíduos fermentados e/ou o adubo?

Já vimos que os resíduos fermentados no compostor Bokashi podem ir diretamente para a vermicompostagem. Mas se não tens um vermicompostor, existem várias formas de dar destino aos “pickles de resíduos” obtidos após a fermentação: podes colocá-los numa pilha de compostagem de “jardim”, podes enterrá-los diretamente num jardim, num vaso ou mesmo misturar com terra na própria caixa de cartão onde veio o compostor! (vê a imagem abaixo)

2ª etapa da compostagem Bokashi

Mas há ainda outras alternativas: podes colocá-los num compostor comunitário (verifica com a tua câmara municipal se existe alguma na tua cidade) ou podes doá-los (tanto os resíduos fermentados como o adubo final) a agricultores de quintas biológicas. Eles precisam sempre de adubo orgânico, e quem sabe até podes ganhar um descontinho nas tuas frutas e legumes ? Há muitas opções. Só precisamos de dar corda à nossa imaginação. A recolha seletiva de resíduos orgânicos está a começar aos poucos a implementar-se em todo o país, por isso podes ainda depositar os resíduos fermentados nesses contentores orgânicos, caso existam na tua área de residência. Faz toda a diferença depositares os resíduos no seu estado original ou fermentados. Pode parecer-te uma “perda de tempo” mas não podias estar mais enganad@! A fermentação Bokashi permite reduzirmos o volume dos nossos resíduos em 25%, porque drenamos toda a sua fração líquida através do “chá Bokashi”. Já pensaste no impacto disto numa larga escala? 25% menos rotas de camiões, 25% menos emissões de gases de efeito estufa, 25% menos gastos dentro das instalações de compostagem industrial. Isto pode ter um impacto enorme a nível de custos, mas principalmente na redução da pegada ecológica da própria recolha seletiva de biorresíduos.

Fazendo compostagem, com ou sem Bokashi, estás evitar o envio de resíduos para aterros, a emissão de gases de efeito estufa (tanto pelo aterro como pelos transportes dos resíduos) e a poluição dos solos e águas pelo lixiviado. Para além disso, com a utilização do composto estás a enriquecer o solo e a ajudar a capturar carbono da atmosfera, contribuindo ativamente para um ambiente mais saudável e regenerativo! Não é fantástico?

Esperamos ter-te convencido 🙂

Não fiques preocupad@ se a tua compostagem não estiver a correr como desejavas. É normal que nos primeiros tempos possas ter algumas dúvidas ou estejas a cometer algum dos erros mais comuns da Bokashi sem te aperceberes. É um dos motivos pelos quais a Mudatuga organiza workshops. Para que possas aprender melhor e ires tirando dúvidas em simultâneo. Fica atent@ ao nosso instagram @mudatuga e subscreve a nossa newsletter para te poderes inscrever no próximo workshop que organizarmos!

Descarrega o e-book sobre compostagem Bokashi aqui.

Saudações ninjaaaaaaas e até ao próximo artigo!

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