Precisam-se de avós que façam compostagem

22, Set. 2021

Se queremos cumprir a Agenda 2030 e as novas metas europeias de valorização de biorresíduos, precisa-se de avós que façam compostagem. Quando falei essa frase no último workshop de compostagem doméstica que dei em Lisboa, algumas pessoas olharam para mim como se eu estivesse a dizer a maior asneira do mundo.

Os miúdos são o nosso futuro, em relação a isso não há dúvidas nenhumas, porém esquecemo-nos que a ação tem que ser feita no agora, e não no futuro. A necessidade de regeneração dos nossos solos é urgente e não se pode esperar que novas gerações cresçam de forma mais consciente.

Inclusive, eu achava que a minha geração era a que prometia ser mais sustentável e “salvar” o planeta, e lembro-me do quanto apostavam nisso quando eu estava na primária. Lembro-me de aulas e visitas de campo em que explicavam que era a nossa missão “consertar” tudo o que a geração dos nosso pais tinha feito de errado. Para a desilusão de todos, inclusive a minha própria, grande parte das pessoas nos seus 30 e poucos hoje não se lembram do que aprenderam nas aulas de ciências, e têm os mesmo padrões de consumo e comportamentos das gerações passadas – talvez até piores! O fast-fashion, o plástico de uso único, os eletrónicos que tornam-se obsoletos após o primeiro ano de uso, tudo isso está normalizado nos meus círculos de amizade. São poucas as pessoas que tentam de facto levar uma vida mais sustentável, apesar de atualmente eu estar imersa numa bolha da sustentabilidade e do low waste.

Eu tento me lembrar todos os dias que estou nessa bolha, e que as atitudes de fato sustentáveis e focadas na regeneração do planeta que vejo ao meu redor não refletem o que faz a maioria. A maioria ainda acha normal comprar frutas cortadas pela metade envoltas num plástico filme.

Em 2020, 22,3% da população portuguesa tinha mais de 65 anos, enquanto apenas 13,5% tinha menos de 13 anos de idade. Parece que nós nos esquecemos desse quase um quarto da nossa população quando traçamos as nossas estratégias de educação ambiental, e ignoramos que essa parcela significativa de nós também produz lixo todos os dias e tem a capacidade de ajudar a decidir o que queremos que seja feito com ele. A Ana Salcedo, da Zero Waste Lab, disse repetidas vezes durante as nossas sessões uma frase que ficou na minha cabeça: “O lixo é das coisas mais democráticas que há, não importa quem tu sejas, tu geras resíduos todos os dias”.

Acredito que esse foi um dos fatores de sucesso para a nossa proposta da Escola a Compostar ter sido aceite pelo Fundo Ambiental: nós queremos valorizar o ensino da compostagem para a população sénior. Achas que isso é impossível? Ora, então permite-me dar um exemplo real do que aconteceu na outra semana.

Era um domingo agradável, e fui convidada pela Associação Gerador para dar um workshop de compostagem com minhocas na sua sede, no Lumiar. Eu montava o meu material em cima de uma mesa enquanto as pessoas iam-se distribuindo em cadeiras espaçadas, ao ar livre, para ouvirem-me falar durante uma hora sobre as maravilhas da vermicompostagem.

compostagem

Logo notei que estavam ali pessoas mais velhas, nomeadamente dois senhores, que aparentavam ter mais de 70 anos. Quando comecei a oficina, vi que eram dos mais interessados em ouvir o que eu estava a dizer, e a um dado ponto um deles interrompeu-me a pedir que eu falasse mais alto. Receei que ele não estivesse a perceber o meu sotaque, convidei-o para trazer a sua cadeira para mais perto de mim, e estavam ali aqueles dois senhores a ouvir atentamente às minhas explicações e piadas sobre esses animaizinhos engraçados que são as minhocas.

Esse senhor, que depois descobri que se chamada José e tinha 75 anos, tinha consigo uma prancheta, onde apontava todas as informações que eu estava a passar. Vi-o desenhar um esquema de um vermicompostor, com flechas a indicar como as caixas que se sobrepõem devem ser invertidas de posição conforme vão sendo preenchidas com resíduos. Depois, perguntou-me qual era o site da minha empresa e uma pessoa ao lado gentilmente ajudou-o a escrever corretamente o nosso endereço de e-mail.

Ao fim do workshop, comentei que havia um e-book gratuito da Mudatuga que poderia ser descarregado pelo nosso website, e vi logo que ele não tinha percebido como isso deveria ser feito. Ele perguntou-me se eu poderia enviar o livro digital para ele, e eu disse que bastava ele me enviar um e-mail para me lembrar que eu lhe encaminharia todos os PDFs que tinha disponíveis. Ele disse que havia recentemente comprado um compostor de jardim numa dessas grandes lojas de jardinagem e que queria fazer a compostagem da forma mais correta possível.

Passados dois dias, recebi no e-mail da Mudatuga a sua mensagem a lembrar-me do PDF. O assunto do e-mail era “compostagem termofílica”, e dizia o seguinte:

“Boa tarde Carolina

Conforme a nossa conversa no workshop do Gerador em 12/09/2021, fico muito agradecido se me puder enviar alguma documentação sobre Compostagem e Termofílica.

Aproveito para mais uma vez lhe dar os parabéns pela excelente apresentação, assim como dizer-lhe que fiquei bastante agradado pela sua oferta de envio do livro e de outra documentação que julgue poder ser-me útil na Termofílica, que é o que para já pretendo utilizar.

Quero desejar-lhe as maiores felicidades no desempenho das funções que abraçou e que seja muito feliz em Portugal.

Os meus cumprimentos

José Silva”

Para qualquer pessoa, isso pode parecer uma besteira, mas para mim significou imenso. Primeiro, que a minha hipótese que as pessoas mais velhas também querem mudar e querem participar da transição para uma economia circular estava correta. Depois, que ninguém está “velho” demais para adotar novos hábitos e para fazer a sua pequena revolução verde no jardim de casa. Então porque é que estamos ainda, em 2021, a focar tanto em ir nas escolas falar com os miúdos sobre sustentabilidade? Não deveríamos estar a falar com pessoas com 40, 50, 60, 70 ou 80 anos também?

Eu vivo em Portugal há apenas 4 anos e não tenho grande conhecimento de iniciativas que foquem em auxiliar adultos a mudarem o seu estilo de vida. Geralmente, alguns deles acabam por chegar a mim por meio da Mudatuga. Mas quando vejo quem é o meu público nas redes sociais, na maioria mulheres entre 20 e 35 anos, fico sempre incomodada porque sei que poderia estar a fazer melhor. Seria o caso de criar programas de compostagem em universidades seniores e lares? Não sei, mas também não descarto essa possibilidade. Se estás a ler até aqui e tens o conhecimento de alguma oportunidade para que a compostagem possa chegar onde ninguém nunca sonhou, envia-me uma mensagem para que possamos conversar sobre isso.

Nas últimas 3 semanas e meia, a minha mãe esteve cá em Portugal a visitar-me, depois de passarmos 2 anos inteiros sem podermos nos ver. Ela frequentou duas vezes as sessões práticas da Escola a Compostar, e ficou entusiasmada com o tema. Acompanhou a minha rotina em casa a cuidar das minhocas e a fazer fermentação Bokashi e Takakura. Ontem, ela ligou-me do Brasil e perguntou-me se deveria comprar um compostor Bokashi ou se deveria utilizar o meu antigo vermicompostor que eu tinha deixado em sua casa anos atrás.

“Estou preocupada que se eu arranjar minhocas e voltar a usar o teu compostor velho, eu acabe as matando de calor porque eu gero muitos resíduos todos os dias, por causa das saladas de frutas. Talvez eu arranje uma Bokashi por causa das cascas de laranja e abacaxi”.

A minha mãe tem 61 anos. Não poderia estar mais orgulhosa dela por ter absorvido tão rápido o conhecimento que tentei passar enquanto estivemos juntas. O meu veredicto? Nunca é tarde para uma pessoa adotar uma família de minhocas e fazer a diferença no mundo.

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