O mundo dos 4 zeros

12, Out. 2021

Ainda é possível sonhar com um mundo zero resíduos orgânicos?

Achas que é possível vivermos num mundo ZERO? Zero pobreza, zero desemprego, zero emissões de carbono e… zero lixo? Na última semana, estive a ler o incrível livro A World of Three Zeros, do professor Muhammad Yunus. Para quem não o conhece, Yunus é um economista do Bangladesh, e na década de 70 ele criou o primeiro banco “dos pobres”.

O Grameen Bank é um banco que fornece microcrédito a mulheres que queiram criar o seu próprio negócio em vilas da zona rural do Bangladesh e funciona na base da confiança: não é exigida nenhuma prova de que a pessoa poderá pagar de volta e nenhum “colateral”, como bens ou imóveis, para garantir o empréstimo. A ideia, para quem conhece o sistema bancário tradicional, pareceu totalmente insana, porém depois de mais de 50 anos em funcionamento, o Grameen Bank anualmente empresta dinheiro a mais de 9 milhões de mulheres, investindo mais de 2,5 mil milhões de dólares por ano em seus empreendimentos, e tem uma taxa de payback de mais de 98%.

Com base em toda a sua carreira apoiando empresas sociais, e criando fundos de investimento específicos para apoiá-las, Yunus foi premiado com o prémio Nobel da Paz em 2006.

Neste livro de 2016, Yunus discorre sobre como é possível criarmos uma nova economia com três bases essenciais: zero pobreza, zero desemprego e zero emissões de carbono.

Devem estar a se perguntar o que é que isso tem a ver com compostagem, certo? Bom, tudo!

Desde setembro, estou a participar do programa Nurturing Social Business, promovido pela Yunus & Youth, uma organização sem fins lucrativos que apoia jovens empreendedores a criar os seus próprios negócios sociais ao redor do mundo, e quem tem o reconhecimento do professor Yunus. Esse programa tem como objetivo apoiar a concepção de uma empresa social, um conceito ainda muito pouco explorado em Portugal infelizmente. E uma das grandes ambições da Mudatuga como empresa é ser um motor de mudança da sociedade portuguesa para um modelo de gestão de resíduos de facto sustentável.

Juntando uma ponta à outra, refleti muito sobre como gostava de contribuir para o mundo dos 3 zeros de Yunus, e ainda adicionar um quarto: zero resíduos. Muitas pessoas ainda não acreditam na viabilidade de chegarmos ao utópico “lixo zero”, mas temos de concordar que podemos chegar muito perto do zero se realmente trabalharmos por isso. O meu foco ao começar a Mudatuga era abordar os resíduos orgânicos e essa foi a melhor estratégia que poderia ter adotado.

Em um dos workshops que tivemos no programa Nurturing Social Business, explorámos uma ferramenta simples para criar soluções aos problemas socioambientais mais complexos, como as mudanças climáticas: antes de decidirmos qual é a melhor solução para o nosso problema, nós nos perguntamos: “how can we….?”

Essa pergunta tão simples fez-me rever todo o percurso da Mudatuga no último ano e perceber porque faz tanto sentido isso que estamos a construir em conjunto: a Mudatuga sempre acreditou no poder da comunidade e da co-criação, desde o primeiro dia. Acho que é evidente que uma empresa com um nome tão disruptivo (ou provocativo?) quanto “MudaTuga” não poderia ser apenas mais uma empresa normal que visa ao lucro sem propósito, certo?

O nosso nome, porém, também poderia ser um convite: muda, tuga? Será que temos as ferramentas para, como sociedade portuguesa, mudarmos os paradigmas dos resíduos no nosso país e sermos pioneiros em encontrar soluções sustentáveis para as nossas futuras gerações? O objetivo deste artigo é vos mostrar que isso é sim possível.

Vou começar por vos mostrar como acredito que podemos alcançar esse tão almejado status de país inovador e sustentável, utilizando um exemplo que já nos é muito familiar: os eco-pontos amarelo, azul e verde. Esses contentores tão famosos são a premissa básica para podermos reaproveitar os resíduos domésticos recicláveis. Depois de anos de campanhas de sensibilização e de muito esforço público para promover a separação na fonte de recicláveis, de campanhas com o macaco Gervásio (adoro-o!), em 2019 e o Relatório Anual de Resíduos Urbanos da APA mostrou que quase 60% dos resíduos domésticos urbanos tiveram como destino final um aterro sanitário.

Eu sou bióloga e não vivi a minha vida toda em Portugal. Eu não tenho na ponta do lápis todos os dados exatos de porcentagens de reciclagem no país e taxas disto ou daquilo. Mas de uma coisa eu tenho a certeza: não estamos a reciclar o suficiente – nem para as famosas metas europeias, nem para o nosso futuro como país que quer ainda abrigar muitas gerações. Eu vejo isso por todos os lados: visito contentores de lixo regularmente e vejo tudo fora de sítio, vivo com pessoas que não sabem separar os seus resíduos, que são adeptas dos plásticos de uso único, vejo roupas dentro do vidrão e muitas outras barbaridades por aí. Vivo em Coimbra e reza a lenda que há mais eco-pontos na cidade do que multi-bancos, e ainda assim as pessoas continuam a levantar dinheiro e fogem da reciclagem.

Onde quero chegar com tudo isso? Que os eco-pontos são maus? Não, de todo! Porém, gostava de trazer à mesa de discussão o facto que algumas soluções por vezes funcionam melhor porque elas foram pensadas de forma coletiva, e não impostas de forma verticalizada. Posso estar totalmente enganada? Talvez sim, porém fico a pensar porque é que então os eco-pontos ainda encontram tanta resistência por parte da população?

Vou aqui agora propor uma hipótese: e se a forma como recolhemos os recicláveis tivesse sido criada de forma colaborativa juntamente ao usuários, no estilo UX que as empresas de tecnologia tanto valorizam? Será que com a criatividade colectiva não poderia ter surgido uma solução que fosse não necessariamente mais fácil, mas que contasse com maior adesão da população?

E aqui é que entra a compostagem: que sorte que ainda estamos “atrasados” e que ainda nada está escrito sobre pedra, porque este momento que vivemos nos traz uma oportunidade única: não tendo um sistema implementado, ainda temos tempo para co-criar, testar, inovar e acertar, em vez de copiar soluções que estão a ser utilizadas em outros lugares.

Posso parecer pessimista, mas não consigo ver um eco-ponto castanho para resíduos orgânicos sendo uma solução eficaz num país em que tanta gente ainda não aprendeu que lâmpadas não podem ir no eco-ponto verde e que esferovite vai no eco-ponto amarelo. Eu vivo numa bolha de sustentabilidade, mas tenho completa noção, por meio de tantas vivências, de quantas pessoas não fazem a mais remota ideia do porque é que devem separar os resíduos na fonte e ainda não acreditam na importância disso.

O que é que propõe então a Mudatuga? Propomos um exercício de reflexão e uma maior vontade de ouvir as pessoas a quem as nossas soluções vão servir. Voltando então às perguntas “how can we…?”, fico aqui a me perguntar:

Como nós podemos envolver as pessoas na separação ativa dos resíduos em suas casas?

Como nós podemos tornar a compostagem numa atividade de lazer, e não numa obrigação chata?

Como nós podemos acomodar as diversidades de rotinas e vidas de cada pessoa na separação dos resíduos orgânicos dentro de casa?

Como nós podemos facilitar e otimizar o processo de recolha seletiva de biorresíduos?

Como nós podemos incentivar a compostagem doméstica e comunitária nas zonas em que a recolha não é tecnicamente viável?

Eu acredito que as melhores respostas para tais perguntas vão surgir depois de muitos momentos de brainstorming e reflexão em conjunto com a sociedade, porque são as pessoas afinal que vão garantir a separação dos resíduos na fonte. Não somos nós que vamos a casa de cada uma delas fazê-lo, e portanto elas precisam de ser ouvidas.

Que bom poder estar a aprender que talvez o mais importante nesta jornada não seja ter as respostas perfeitas, mas sim saber colocar as perguntas certas e estar aberta a ouvir as dores da nossa comunidade.

Voltando ao livro que estimulou essa minha reflexão, trago um trecho em que o professor Yunus descreve como ele idealizou o Grameen Bank:

“Since I had no experience in or knowledge of banking, I had to look to the conventional banks to learn how they worked. But because their methods had failed to serve the poor people of Jobra, I couldn’t simply imitate them. Instead, each time I learned how the conventional banks did things, I did the reverse. As a result, the institution I created turned out to be the antithesis of a conventional bank.”*

Fica a minha pergunta: e se for isso que está faltando ser feito na gestão de biorresíduos? Que possamos nos apaixonar primeiro pelo problema antes de nos apaixonarmos pelas nossas soluções.

——

*Fonte: Yunus, Muhammad (2016). A world of three zeroes: the new economics of zero poverty, zero unemployement and zero carbon emissions. Scribe Publications.

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